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Dificuldade: média
O título desta exposição é, já de si, surpreendente: Hoje soube-me a pouco, um verso de
uma canção de Sérgio Godinho (Com um brilhozinho nos olhos) datada de 1981. É de uma
época em que, sete anos após a revolução de Abril de 1974, ainda se jubilava¹ na música
popular portuguesa com toda a liberdade tornada possível pelo fim da censura do Estado Novo.
De certa forma, este verso, como outros de tantas outras músicas desses anos, condensa
metonimicamente a euforia que se vivia na época.
João Pinharanda e Sérgio Mah, os curadores² da exposição, acrescentam a este título
um subtítulo: Introversões e utopias³ artísticas no pós-25 de Abril. Por isso, embora esta seja
também mais uma exposição que assinala o cinquentenário dessa revolução, ela não é só
isso, e apresenta-se também como o resultado de uma reflexão não só sobre alguns sinais
prenunciadores, como sobre o que veio a seguir em termos artísticos. Com uma montagem
hábil no sempre difícil espaço de exposições temporárias da Central Tejo⁴, resolve muito bem
este propósito de dar a ver a irradiação da possibilidade de tudo fazer, de tudo mostrar e de
tudo dizer, que a partir dessa data passou a ser uma realidade.
Muito interessante é o ponto de partida dos curadores: que a «maioria dos artistas escolhidos
não só constrói a sua obra de modo autónomo em relação às utopias sociais inauguradas pelo
25 de Abril e rapidamente desfeitas pelo curso político, como lhes sobrevive, podendo as
suas obras ser consideradas como a herança cultural mais fecunda e consistente do próprio
processo de abertura da sociedade portuguesa», como afirmam na folha de sala. E, de facto,
há muito poucas obras nesta exposição que se relacionem diretamente com a Revolução dos
Cravos. [...]
Há algo que está subjacente a toda a exposição e que, no entanto, não é explicitado: é que
estes 50 anos são também os anos em que a arte que se faz em Portugal se torna global, e em
que os discursos individuais — as introversões de que fala o subtítulo — se tornam a norma
de toda a arte internacional, num tempo, que é o de hoje, em que todas as utopias artísticas
faliram. Não existem hoje movimentos de artistas, escolas, grupos estilisticamente organizados.
E, tal como a democracia, mesmo ameaçada, é a norma dentro do contexto político ocidental
contemporâneo, também este modo de pensar que aqui se dá a ver é universal dentro do espaço
artístico que é o nosso. Basta-nos passear por qualquer feira de arte atual, ou por qualquer
bienal institucionalmente consagrada, para verificarmos isso mesmo. Para parte destes artistas
(Bunga, Leonor Antunes, Themlitz, por exemplo), a vida partilhada entre Portugal e outro país
é a norma. Noutros, as residências efetuadas no estrangeiro, muitas vezes graças ao apoio
mecenático⁵ de instituições que se destacam pela atividade colecionista, foram determinantes
no seu crescimento. Em todos os casos, fosse por viagens, fosse por outros meios, o confronto
com o «lá fora» foi sempre determinante. Também aqui, o significado do 25 de Abril foi o fim do
«orgulhosamente sós».
Fonte:
Luísa Soares de Oliveira, «O fim do orgulhosamente sós», Ípsilon, 21 de junho de 2024, p. 12.
Notas:
- jubilava – festejava; celebrava.2. curadores – organizadores.3. utopias – sistemas ou planos que parecem irrealizáveis; modelos de sociedades ideais.4. Central Tejo – antiga central termoelétrica, em Lisboa, onde atualmente se situa o Museu da Eletricidade.5. mecenático – relativo ao mecenato, isto é, ao apoio financeiro concedido por pessoas ou instituições às artes e às letras.
Questão:
Na evolução da palavra latina «feriam» para a palavra portuguesa «feira» (linha 29), ocorreram os
processos fonológicos denominados
Fonte: Exame Português - 2025, Época Especial
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