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Dificuldade: média
Um dos filósofos mais originais e discretos do século XX, o russo Pavel Florenskij, escreveu:
«A nossa vida escapa-nos como um sonho, e é possível não chegar a tempo de fazer coisa
alguma neste breve instante que é a vida. Por isso, é necessário aprender a arte de viver, a
mais difícil e a mais importante das artes: a capacidade de conferir a cada hora um conteúdo
substancial, conscientes de que aquela hora não tornará jamais.» Pode, de facto, acontecer-nos
«não chegar a tempo» até porque, precisamente, o tempo é uma alta febre que nos toma e que,
não raro, nos atira borda fora da nossa própria embarcação. Desde que ganhámos consciência
de que estamos dentro do tempo, de que somos seres amassados na argila do tempo, deixámos
de ter tempo. A nossa vida, quase por completo, está destinada ao fazer e ao produzir, a essa
luta certamente áspera, monótona ou dilacerante, mas também apaixonada, envolvente e, à
sua maneira, vital. Na verdade, não há, à partida, nenhum problema com a vida ativa da qual
dependemos, e não só para garantir a basilar luta pela sobrevivência. O coágulo forma-se
quando a atividade se torna o fim e nós os instrumentos; quando, manhã após manhã, o espelho
testemunha como nos estamos a transformar em elementos puramente instrumentais de uma
vida que já não quer saber de nós. Muitas vezes, a esse lampejo de consciência, reagimos
pressionando ainda com mais força o pé contra o acelerador, deixando-nos ir, aceitando que não
nos resta outra forma de aceitar a temporalidade. E tentamo-nos consolar dizendo: «não tenho
vida, mas tenho coisas», «não tenho tempo para nada, mas adquiro poder de compra».
Às nossas sociedades falta uma reflexão séria sobre a completude da experiência humana e
sobre as reivindicações – a maior parte delas sufocada – por um estilo de vida mais equilibrado.
O dever ou o direito de fazer não tem de se construir sacrificando a toda a linha o dever ou o
direito de ser. A estimulação para o ativismo não tem de ser tão brutal que insista em queimar
– com a rapidez com que arde um fósforo – todos os recursos, exteriores e interiores, que
alguém possui para viver. A pressa não pode ignorar por completo a lentidão. A vida ativa não
tem necessariamente de suprimir a necessidade que cada um de nós sente de contemplação.
Vêm-me ao pensamento os versos do «Canto Noturno de Um Pastor Errante da Ásia», do
poeta Giacomo Leopardi: «Que fazes tu no céu, ó lua? Diz-me / que fazes, silenciosa lua? […] /
Diz-me ó lua, afinal / que vale ao pastor a sua vida, / ou para que te serve a ti a tua? Diz-me para
que direção / caminha este meu breve vagar / e para onde se dirige o teu curso imortal?» Na
composição, o pastor errante contempla a lua. Com que necessidade? Em busca de quê? Em
busca de uma profundidade que porventura nunca conseguiremos atingir completamente, mas
na qual precisamos de nos sentir imersos. Há um horizonte mais amplo, para lá da resolução
individual da minha existência: ficarei incompleto, alguma porção essencial de mim ficará por
se desenvolver, se nunca tiver chegado verdadeiramente a confrontar o «meu breve vagar»
com o «curso imortal». Na língua latina, a palavra contemplação deriva da junção de dois
termos: cum e templum, que indicava na antiguidade o espaço aberto nas cúpulas para que se
interpretassem os sinais do futuro. Contemplar é não apenas introduzir uma benéfica lentidão
no nosso olhar. É também colher o tempo da vida como um tecido relacional, uma intersecção
dialógica que dilata ao infinito o sentido da nossa existência.
Fonte:

José Tolentino Mendonça, «Que fazes tu no céu, ó lua?», in E - A Revista do Expresso, 18 de julho de 2020, p. 90.

Questão:
A utilização da expressão «de facto» (linha 5) e do pronome «tua» (linha 28) contribui para a coesão
Fonte: Exame Português - 2021, 2ª Fase
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(A) gramatical interfrásica, no primeiro caso, e gramatical referencial, no segundo caso.
(B) gramatical interfrásica, no primeiro caso, e lexical por reiteração, no segundo caso.
(C) gramatical frásica, no primeiro caso, e gramatical referencial, no segundo caso.
(D) gramatical frásica, no primeiro caso, e lexical por reiteração, no segundo caso.


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