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Dificuldade: por definir
Parte A:
Bastaram-lhe meia dúzia de passos para que, na margem da Lagoa da Lama Verde,
topasse com outro espetáculo desusado: uma rã a inchar perto de um boi que forcejava¹
penosamente por reduzir o volume do corpanzil.
Cá temos as personagens da fábula A Rã e o Boi – recordou João Sem Medo com
um sorriso interior. Minha mãe contou-ma várias vezes... Certa manhã a Senhora Rã
encontrou o Senhor Boi e, invejosa da imponência física do parceiro, não sei por que bulas²
arranjou maneira de autossoprar-se e inchar, inchar, inchar... E tanto inchou que rebentou...
Agora, porém, o caso muda de figura. A Rã incha, sim, mas o Boi pelo seu lado desincha,
amesquinha-se, diminui de tamanho... [...]
Três metros adiante o vento trouxe-lhe farrapos de um diálogo tão seu conhecido que lhe
espevitou a curiosidade (e o apetite) de espreitar para a clareira onde, há séculos, a Raposa
erguia os olhos de doçura matreira para o Corvo, empoleirado numa árvore com o queijo (e
que queijo!) no bico.
Na velha fábula, como sabem, o Corvo apreciava tanto as lisonjas⁴ que, mal a raposa
solerte⁵ lhe regougava⁶ meia dúzia de mentirolas, abria o bico e o queijinho escorregava
pelas goelas da bicha que era um regalo.
Pois desta vez o palavreado de insinuação doce da zorra⁷ não seduziu o Corvo que,
funebremente irónico, se limitou a esvoaçar do ramo para uma grafonola⁸ portátil ao lado e
a fazer rodar, com um movimento de patas, o disco onde estava registada esta resposta de
sabor cínico:
Não calculam o focinho desalentado da raposa a contemplar o queijo redondinho e gordo
que, lá em cima, pendido do bico, imitava o desenho da Lua inacessível. E, rabo entre as
pernas, cabeça baixa a fariscar⁹ outro rasto, a coitada internou-se no bosque, desdenhada e
sorrateira... Ao passo que o Corvo, enfim sozinho e enfatuado¹⁰, não resistia a clamar vitória,
depois de largar o queijo:
E com um bater de asas modesto:
E o passaroco, com ademanes de primadona¹¹, pôs-se a grasnar uma melodia horrenda
– enquanto João Sem Medo, de olhos cobiçosos e feliz por castigar a vaidade do Corvo, se
aproximou com lentidão de pezinhos de lã, pegou no queijo e fugiu com ele debaixo do braço.
Fonte:

José Gomes Ferreira, Aventuras de João Sem Medo, 12.ª ed., Lisboa, Moraes Editores, 1981

Notas:
  1. forcejava – se esforçava. 2. bulas – motivos. 3. deleite – prazer. 4. lisonjas – elogios exagerados. 5. solerte – manhosa; traiçoeira. 6. regougava – dizia, emitindo sons próprios da sua espécie. 7. zorra – raposa. 8. grafonola – aparelho antigo de reprodução de música. 9. fariscar – farejar. 10. enfatuado – vaidoso. 11. ademanes de primadona – atitudes de vedeta.
Questão:
Explica o significado da expressão «farrapos de um diálogo» (linha 10).
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2016, Época Especial

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