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Dificuldade: média
Contexto:
Lê o Texto C, um excerto do conto «A Perfeição», de Eça de Queirós, inspirado no episódio da Odisseia em que o ilustre Ulisses se encontra preso na ilha da deusa Calipso. Lê também as notas.
Então Calipso, pensativa, lançando sobre os seus cabelos anelados um véu da cor
do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa pressa que lhe
enrodilhava¹ a túnica, à maneira duma espuma leve, em torno das pernas redondas e
róseas. Tão levemente pisou a areia que o magnânimo² Ulisses não a sentiu deslizar,
perdido na contemplação das águas lustrosas³, com a negra barba entre as mãos,
aliviando em gemidos o peso do seu coração. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana⁴
amargura. Depois pousando no vasto ombro do herói os seus dedos tão claros como os
de Eos, mãe do dia:
— Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o mar! Os Deuses,
que me são superiores pela inteligência e pela vontade, determinam que tu partas,
afrontes a inconstância dos ventos, e calques⁵ de novo a terra da Pátria...
Bruscamente, como o condor⁶ fendendo⁷ sobre a presa, o divino Ulisses, com a face
assombrada, saltou da rocha musgosa:
— Oh Deusa, tu dizes!...
Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos⁸, enrodilhados no
véu cor de açafrão, enquanto a vaga rolava, mais doce e cantante, no amoroso respeito
da sua presença divina:
— Bem sabes que não tenho naves de alta proa, nem remadores de rijo peito, nem
piloto amigo das estrelas, que te conduzam... Mas certamente te confiarei o machado de
bronze que foi de meu pai, para tu abateres as árvores que eu te marcar, e construíres
uma jangada em que embarques... Depois eu a proverei de odres⁹ de vinho, de comidas
perfeitas, e a impelirei¹⁰ com um sopro amigo para o mar indomado...
O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar que a
desconfiança enegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a ansiedade do seu
coração:
— Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me convidas a
afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm fundas naves! Não,
Deusa perigosa, não! Só embarcarei na tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo
juramento terrífico dos Deuses, que não preparas, com esses quietos olhos, a minha
perda irreparável!
Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram:
— Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Estígio, que é a maior
invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem, Príncipe dos homens, que não
preparo a tua perda, nem misérias maiores...
O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da túnica,
esfregando as palmas das mãos robustas:
— Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh Deusa!... O dia
baixa e o trabalho é longo!
Sossega, oh homem sôfrego¹¹ de males humanos! Os Deuses superiores em
sapiência¹² já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta, a reforçar a
tua força... Quando Eos vermelha aparecer, amanhã, eu te conduzirei à floresta.
Fonte:
Eça de Queirós, «A Perfeição», in Contos I, edição de Marie-Hélène Piwnik, Lisboa, IN-CM, 2009, pp. 352-354.(Texto com supressões)
Notas:
- enrodilhava – enrolava.2. magnânimo – que demonstra grandeza.3. lustrosas – brilhantes.4. soberana – superior.5. calques – pises.6. condor – ave de rapina.7. fendendo – atravessando o céu.8. pendidos – pendurados.9. odres – recipientes de couro para transportar líquidos.10. impelirei – farei avançar.11. sôfrego – ansioso.12. sapiência – sabedoria.
Questão:
Nas linhas 37 e 38, Ulisses manifesta a sua
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2024, 2ª Fase
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