Com Ulisses, vivemos uma Odisseia; com Fernão Mendes Pinto, fomos em
Peregrinação sem sair do sofá. Entretanto, a Índia está aqui ao lado e o Japão não
tem de ser um lugar estranho¹. Viajamos nos livros, conduzidos pela jornalista Andreia
Marques Pereira, para, se calhar, um dia viajarmos com os livros. De uma maneira ou de
outra, um dia destes podemos chegar a Ítaca².
«Conheço a Patagónia quase até ao cheiro», declara Francisco Guedes. Sabe,
inclusivamente, que há uma estrada em linha reta, 40 quilómetros de nada e, de repente, um
abismo com 150 metros de profundidade: um vale que é um oásis de quase 150 quilómetros de
extensão. Da mesma forma, conhece a Cidade do México. Francisco Guedes – editor, tradutor,
organizador do encontro Literatura em Viagens, que se realiza em Matosinhos – nunca esteve,
fisicamente, na Argentina ou no México. Mas conhece o caminho para Rio Gallegos (quase)
de cor e por lá se movimenta (quase) sem surpresas. Já lá foi com vários escritores: Lázaro
Covadlo, Luís Sepúlveda e Mempo Giardinelli – de quem traduziu um livro, Fim de Romance
na Patagónia. É assim que vai «conhecendo», «viajando por aí». «Posso não poder lá ir»,
constata, «por isso, viajo de outra maneira». Através dos livros.
«Os livros têm essa vantagem», nota Carlos Vaz Marques, «são o meio de transporte mais
barato que conheço. Nós não podemos ir a muitos sítios, mas os livros levam-nos a sítios onde
nunca poderíamos ir de outro modo. Nesse sentido, é um meio de transporte muito acessível
e ao alcance de todas as pessoas que queiram usá-lo». Assim, quando foi convidado por
uma editora para organizar uma coleção de livros, o autor do programa radiofónico Pessoal e
Transmissível não hesitou em juntar as duas coisas de que mais gosta: ler e viajar. «A literatura
de viagens conjuga as duas vertentes e é talvez a ligação mais feliz que eu posso imaginar
para essas duas coisas».
Viajar é uma das ações mais antigas da humanidade, uma deslocação geográfica que
atualmente se pode desdobrar em inúmeras formas, à medida de cada estudioso: a viagem
iniciática³, a viagem de descobrimento e a viagem de turismo. «Toda a gente quer ir de férias,
não é?», nota Francisco Guedes. E contar as viagens, seja oralmente ou através da escrita,
espontaneamente ou com mais cuidado literário, é um impulso quase irresistível. Depois,
enquanto uns se fazem à estrada, outros não saem de casa. É a magia da literatura de viagens.
É a magia da viagem na literatura.
É verdade que a massificação do turismo e o advento do televisão e da Internet tornaram
mais pequeno e mais familiar o mundo que a expansão ultramarina dos séculos XV e XVI
imensamente desvendou. No entanto, ainda há espaço para deslumbramentos. Carlos Vaz
Marques lembra as suas experiências em Veneza. «Achei aquilo extraordinário, porque
é uma cidade que está sobre-exposta em termos de imagem; mas eu cheguei e aquilo
surpreendeu-me, como se não tivesse visto nada, como se não soubesse nada. E eu pensava
que já sabia exatamente tudo e que já tinha visto as imagens todas». E, por causa dos livros,
tem uma viagem de sonho. «Os livros do Naipaul fizeram-me “ir” à Índia e querer lá voltar de
corpo inteiro».
É o sortilégio da literatura de viagens, «que nos leva a imaginar que também podemos
viajar», sublinha Francisco Guedes. Por isso lemos e, quando podemos, viajamos.