?
?
Cria conta para teres acesso a vídeos, estatísticas do teu progresso, exercícios originais e mais!
Dificuldade: média
As bibliotecas não são, nem nunca serão, usadas por toda a gente. Na Mesopotâmia como
na Grécia, em Buenos Aires como em Toronto, os leitores e os não-leitores existiram lado a
lado, e os não-leitores sempre constituíram a maioria. Fosse nos scriptoria¹ exclusivos da
Suméria e da Europa medieval, na popular Londres do século XVIII ou na Paris populista
do século XXI, aqueles para quem ler livros é essencial são muito poucos. O que varia é
não as proporções desses dois grupos da humanidade, mas a maneira como as diferentes
sociedades encaram o livro e a arte de ler. E aqui a distinção entre o livro entronizado² e o livro
lido entra novamente em jogo.
Se um visitante do passado chegasse hoje às nossas cidades civilizadas, um dos aspetos
que surpreenderiam esse Gulliver³ antigo seria certamente os nossos hábitos de leitura.
Que veria ele? Veria enormes templos comerciais em que os livros se vendem aos milhares,
edifícios imensos em que a palavra publicada é dividida e organizada em categorias primorosas
para consumo orientado dos fiéis. Veria bibliotecas com leitores a deambular pelas estantes,
como fazem há séculos. Vê-los-ia explorar as coleções virtuais em que alguns desses livros
se converteram, levando agora uma existência frágil de fantasmas eletrónicos. O viajante
do tempo também encontraria uma série de leitores ao ar livre: em bancos de jardim, no
metro, nos autocarros, comboios e aviões, em apartamentos e casas, por todo o lado. Não o
censuraríamos se o nosso visitante presumisse que a nossa sociedade era letrada.
Pelo contrário. A nossa sociedade olha para o livro como um dado adquirido, mas o ato de
ler – outrora considerado útil e importante, assim como potencialmente perigoso e subversivo – é
agora condescendentemente aceite como passatempo, um passatempo vagaroso desprovido
de eficiência e que não contribui para o bem comum. Como o nosso visitante acabaria por
perceber, na nossa sociedade a leitura não é senão um ato acessório, e o grande repositório
da nossa memória e experiência, a biblioteca, é considerado mais um armazém inconveniente
do que uma entidade viva.
Durante as revoltas estudantis que abalaram o mundo no final da década de 1960, uma das
palavras de ordem gritadas aos docentes na Universidade de Heidelberg foi «Hier wird nicht
zitiert!», «Aqui não há citações!». Os alunos exigiam pensamento original; esqueciam-se de
que citar é continuar uma conversa do passado para dar contexto ao presente. Citar é fazer
uso da Biblioteca de Babel⁴; citar é refletir sobre o que já foi dito e, se não citarmos, falamos
num vácuo em que nenhuma voz humana produz som.
Fonte:

Alberto Manguel, A Biblioteca à Noite, Lisboa, Tinta-da-China, 2020, pp. 193-194.

Notas:

1 scriptoria - nome dado às salas onde os escribas se dedicavam à escrita, à cópia e à iluminação de manuscritos.2 entronizado – que se coloca em posição de destaque.3 Gulliver - protagonista do livro As Viagens de Gulliver, da autoria de Jonathan Swift, famoso pelas suas viagens imaginárias, nomeadamente à terra das pessoas minúsculas e à terra dos gigantes.4 Biblioteca de Babel – designação associada à idealização de uma biblioteca que contém todos os livros do mundo, representando um repositório de todo o conhecimento.

Questão:
No segundo parágrafo, o autor recorre predominantemente a formas verbais no modo condicional para
Fonte: Exame Português - 2023, 2ª Fase
(A) exprimir a incerteza em relação a ações que prevê virem a acontecer.
(B) referir ações reais posteriores ao momento em que escreve.
(C) exprimir a dúvida sobre ações que acontecerão mediante certas condições.
(D) referir ações hipotéticas que não se realizaram nem se realizarão.


Comentários

Neste momento, não há comentários para este exercício.

Para comentar, por favor inicia sessão ou cria uma conta.