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Dificuldade: por definir
Debaixo das estrelas, sentado no lancil¹ do largo, Campanelo conta a história da
Torre da Má Hora e os meninos estão de roda, escutando.
Os olhos das crianças abrem um silêncio tão grande que só se ouve a voz do homem.
Agora mesmo espalmou as mãos sobre os joelhos dobrados e deixou os meninos
mexerem-se, chegarem-se mais para perto, nervosos, adivinhando que a história vai
tomar-lhes todo o interesse.
E aos olhos e ouvidos abertos Campanelo demora as sílabas:
‒ ... Ora, a fada disse: «Só lá há de chegar quem para trás não olhar!...» Ia, pois, o
menino andando, andando, quando avistou, a uma grande lonjura, a Torre da Má Hora!
...Muito alta e negra!...
Neste momento, a Lua, rompendo por detrás das muralhas do castelo, ilumina o largo.
Os rapazinhos olham a Lua, a sombra das ruas e a cal branca das casas espantadas,
na noite quieta.
Só o rapazinho do bibe preto fica imóvel – esguia e negra, nos seus olhos, desenha-se
a Torre da Má Hora...
– ...E se ele olhasse para trás com medo dos gemidos e dos vultos que andavam na
floresta?... Campanelo, se ele olhasse para trás?
O homem alonga a voz:
‒ Ficava transformado numa estátua de pedra fria como o Príncipe Sem Coração.
Olhar para trás é ter medo!
Como o homem se calasse tão bruscamente, o rapazinho faz estremecer os outros
com a sua grande ansiedade:
‒ Continua lá, continua lá, Campanelo!
E vem-lhe à ideia – só agora, depois de tanta vez ouvir o Campanelo – que a sua
vida é tal qual como a do menino que não tinha pai nem mãe e ia sozinho pelo mundo...
Parece-lhe que outra voz lhe está soprando ao ouvido um cicio² triste e lento...
Como os companheiros do largo, cresceu ao deus-dará³. Decorou tudo, léguas em
redor da vila, correndo estradas e caminhos velhos, atravessando renques de piteiras⁴
que cercam as vinhas, à mercê de⁵ um tiro de sal pelas pernas. E nem os muros altos,
com os cães de guarda ladrando dentadas, defendiam o que houvesse para lá da
sua curiosidade. Só quando subia às árvores na mira de ninhos e descobria algum,
tão pequenino, com quatro biquinhos abertos, sequer lhe tocava e logo o esquecia
baloiçando nos ramos, feliz de se ver tão alto. E, nos barrancos⁶, desertos por longe da
vila, descobria esconderijos tão disfarçados e fáceis que, quando jogava aos guardas e
ladrões – ele era sempre ladrão –, nenhum guarda o conseguia prender.
Como o menino que Campanelo conta, ele também se sentia, às vezes, extenuado
de andar atalhos e matos. Então, à sombra de uma copa, deitava a nuca sobre as mãos
cruzadas. E todo o silêncio dos campos, que ele agitara até àquele momento com o
rumor dos passos e dos gestos, se aquietava, caía sobre ele, tão largo que daí a pouco
se julgava adormecido. Adormecido e de olhos abertos para as coisas que o cercavam.
Principalmente para a planície, ondulando na sua frente. No horizonte ensombrado,
parecia-lhe haver qualquer coisa de misterioso como na floresta que Campanelo compõe
cheia de gemidos e vultos. E esse mistério prendia-lhe os olhos por largo tempo.
Fonte:
Manuel da Fonseca, «A Torre da Má Hora», Aldeia Nova, s.l., Forja Editora, 1975, pp. 121-124. (Texto com supressões)
Notas:
NOTAS 1 lancil – elemento que forma o bordo de um passeio ou de uma calçada. 2 cicio – murmúrio. 3 ao deus-dará – entregue à própria sorte. 4 renques de piteiras – filas de plantas de folhas rijas, carnosas e espinhosas. 5 à mercê de – sujeito a. 6 barrancos – terrenos muito inclinados.
Questão:
A Lua aparece e ilumina o largo. Nas linhas 12 e 13, o narrador segue o olhar dos rapazinhos
na observação do espaço, usando, para o efeito,
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2023, Época Especial
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