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Dificuldade: média
É com uma cenografia deslumbrante, de José Manuel Castanheira, que nos deparamos ao
sentarmo-nos na plateia do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. Ficámos encantados,
naturalmente, pela beleza do artefacto em si, pela sua originalidade, mas também pelo interesse
em saber como se comporta quando habitada pelos atores. E, de facto, uma vez iniciado o
espetáculo, compreendemos que dialoga em absoluto com a encenação, induz movimentos
pendulares de instabilidade/estabilidade, promove o jogo e o prazer na representação dos
atores, a comprovar a importância essencial da cenografia como elemento fundamental na
criação de soluções na cena. [...]
Falamos de Reinar depois de morrer (c. 1640), de Luis Vélez de Guevara (1579-1644),
[...] considerada, pela professora e hispanista Maria Fernanda Abreu, no prefácio à edição
portuguesa, «a mais importante tragédia desse magno período da dramaturgia ibérica», o
século de ouro espanhol. É uma estreia absoluta em Portugal, em belíssima tradução do poeta
Nuno Júdice, publicada pela Companhia de Teatro de Almada, na sua coleção de Teatro, com
direção editorial de Rodrigo Francisco. [...]
Nesta tragédia, segundo Nuno Júdice, o autor «desenvolve, num estilo já anunciador do
Barroco, uma complexidade de sentimentos e de conflitos (...) que elevam a peça a um grau
elevado de construção literária», o que reveste de coragem a escolha para a sua encenação.
Porém, temos a felicidade de assistir à versão de José Gabriel Antuñano, teatrólogo, professor,
dramaturgista, crítico que, com grande sabedoria e conhecimento, realizou uma partitura
excecional, uma montagem pró-cinematográfica a tornar possível que atores e público do
século XXI se impressionem e partilhem emoções universais, como o exacerbamento das
paixões e a reflexão política sobre o conflito entre a liberdade individual e o poder do estado,
que esta tragédia tão poeticamente transmite.
O seu trabalho fica notabilizado na rica, inventiva e dinâmica encenação do jovem Ignácio
García (1977) — que também compõe a música —, especialista em direção de repertório
espanhol que, em diálogo com a cenografia, realça a «metáfora aquática na história de Inês
de Castro e a sua fonte das lágrimas», ou o fragmento de um leito de um rio através do
qual a «corrente do destino arrasta as personagens para a morte». Mas também o sonho
de premonição de morte, presente no texto e no tratamento azulejar do cenário, a que a
encenação aduz camadas de significação poética e que, a par dos inspirados e belos figurinos,
vestiu os atores de graça e de rigor, a oferecer-nos este tesouro barroco em perfeita harmonia
com o horizonte de expetativa do público.
Por último, mas, com certeza, os primeiros, os atores surgem numa distribuição exemplar
e bem dirigidos, com conhecimento da forma de elocução de teatro barroco em verso, sem
cesuras, respirando nos tempos certos, com manifesto à-vontade com a linguagem e com o
movimento, evidenciando os matizes das personagens. [...]
Uma palavra de apreço para a iluminação que soube ampliar a simbologia e os cromatismos
presentes na cenografia e nos figurinos, clarificando a sua polissemia. Oportunidade única de
assistir a um sofisticado e feliz espetáculo sobre um dos mais belos mitos do nosso imaginário
que a Companhia de Teatro de Almada nos propõe.
Fonte:
Helena Simões, «Reinar depois de viver», in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 6 a 19 de novembro de 2019, p. 25.
Questão:
Todas as orações abaixo transcritas são adjetivas relativas, exceto a oração
Fonte: Exame Português - 2020, Época Especial
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