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Dificuldade: média
Camilo Castelo Branco é um caso singularíssimo na língua portuguesa. Longe do repentismo
ou da facilidade, estamos perante um cultor das letras que se evidenciou ao saber aliar grande
talento narrativo, capacidade de evocação única e exigência de profissional, que se equiparam
aos dos maiores escritores de sempre, como Dickens ou Balzac... Alexandre Cabral fala,
com razão, do «exemplo de um profissionalismo sem mácula, nesse estrito aspeto, que não
foi ainda ultrapassado». Fialho de Almeida calculava a produção camiliana em cerca de
180 volumes e 54 mil páginas. Hoje sabemos que esse cálculo é feito nitidamente por defeito.
[...] E no tocante ao uso da língua, nunca se deixou deslumbrar pelos arrebiques escusados,
antes ligando a clareza à diversidade vocabular, para ser fiel às particularidades e diferenças
culturais. Nesse ponto é inigualável. E não é preciso entrar em comparações com outros dos
nossos melhores - Camilo é Camilo.
[...] De personalidade marcada e feitio tantas vezes agreste, Camilo tem, na sua longa obra,
severas apreciações críticas que atingem mil suscetibilidades. Houve, por isso, razões para
ódios e suspeições, mas, à distância, ao lermo-lo fica-nos a grande riqueza da matéria-prima
com que lida – a vida de uma sociedade marcada por dualismos e diferenças profundos,
que só poderiam ser retratados e compreendidos por quem tivesse oportunidade crítica e
capacidade de ver o tempo à luz da duração e do largo prazo... [...]
Em O Tempo de Camilo Anotado Ano por Ano, o organizador da obra, Viale Moutinho,
com grande mestria, leva-nos, a partir da vida do autor de Amor de Perdição, através dos
acontecimentos do país e do mundo. E sentimos como há um enredo romanesco, donde
tudo parte, na existência atribulada, e nem sempre evidente, de Camilo. Desde muito cedo,
há tendência para se embrenhar em polémicas, para formular juízos severos, para criar
anticorpos... Em Ribeira de Pena, em 1843, escreve e afixa na porta da matriz versos ofensivos
a uma família importante da vila. Para salvar a pele foge para Vilarinho de Samardã... Em
1846, devido a uma série de artigos publicados no Porto em que criticava o governador civil
de Vila Real, é barbaramente agredido... Foge com Patrícia Emília para a cidade invicta, mas
é acusado por um tio de roubo, sendo ambos presos. Com traços romanescos, porém, o tio
confessará depois que era falsa a acusação, feita apenas para travar a fuga... Em 1850, sai a
lume o primeiro romance do novel autor – Anátema...
Estes breves exemplos ilustram uma vida sentimental intensa, que culminará no caso de
Ana Plácido, e uma vida familiar dramática. Este é, no entanto, o pano de fundo de uma
persistência admirável enquanto profissional da escrita. Ele confessa: «Eu inclinava o peito
crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de
uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia, escrevia
sempre».
Fonte:

Guilherme d'Oliveira Martins, «Saber ler os segredos de Camilo», Jornal de Letras Artes e Ideias, 26 de outubro a 8 de novembro de 2016, p. 28.

Notas:

arrebiques (linha 8) – adornos exagerados, geralmente considerados de mau gosto.bruxuleava (linha 34) - brilhava de forma trémula.novel (linha 29) – novo; principiante.tressudando sangue (linha 33) - suando sangue; com grande sofrimento.vascas (linha 34) – agonias.

Questão:
No excerto correspondente ao discurso de Camilo, transcrito nas linhas 32 a 35, as formas verbais exprimem os valores aspetuais
Fonte: Exame Português - 2018, Época Especial
(A) perfetivo e genérico.
(B) perfetivo e iterativo.
(C) imperfetivo e genérico.
(D) imperfetivo e iterativo.


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