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Dificuldade: média
Fernando Pessoa, ou Álvaro de Campos, sabia do que falava. Todas as cartas de amor
são ridículas. O poema é a mais acertada descrição do género. A epistolografia¹ amorosa
quase sempre se revela embaraçosa para grandes autores, sejam eles Dostoievski ou James
Joyce, Beethoven ou Napoleão. A carta de amor estipula uma intimidade que, no papel – e as
grandes cartas de amor foram todas concebidas em papel ou não as teríamos hoje disponíveis
para a curiosidade ou emulação² –, raramente traduz a beleza encriptada da poesia ou a
grandiosidade sociológica da ficção. Quer isto dizer que as melhores cartas de amor foram as
inventadas ou sugeridas nos grandes romances e nos grandes poemas de amor. [...]
Um autor, um artista, devia a si próprio e à sua biografia umas cartas de amor. As damas
ainda precisavam da sedução epistolar antes de sucumbirem à sedução fatal. [...]
Não estranhemos que um realista lúcido como Eça escreva uma carta de amor a Emília de
Resende, a mulher com quem se casou, ou que um intelectual como Fernando Pessoa comece
uma carta a Ofélia assim: «Meu Bebé, meu Bebezinho querido». […] Adiante, na dita carta,
Pessoa queixa-se do desinteresse de Ofélia pelas suas doenças, acha que ela se aborrece,
e acusa-a de, por estar bem de saúde, se estar ralando para³ o que os outros sofrem. A peça
quase se torna cómica na perseguição de uma relação consigo mesmo, a única relação séria
que Pessoa teve. O poeta despede-se: «Adeus amorzinho, faz o possível por gostares de mim
a valer, por sentires os meus sofrimentos, por desejares o meu bem-estar; faz, ao menos, por
o fingires bem». As Ofélias têm triste sorte na literatura. É, de qualquer modo, uma carta onde
Pessoa pôs quanto era neste mínimo que fez, como apregoava Ricardo Reis. […]
E o Eça, o nosso Queirós? Brevemente, diga-se que as cartas eram para a legítima e
traduziam um sentimento não muito diferente do realismo anterior ao casamento, quando em
Newcastle ansiava pelo contrato com uma mulher que lhe serrotasse⁴ numa manjedoura uma
palha honesta. A Emília, escreve: «Cada dia que passa, agora, me aproxima de si (…). Eu
também não realizo bem a situação. Ela não deixa de ser ligeiramente romântica. Separamo-nos
amigos, reencontramo-nos noivos». Passava-se isto em 1885, e menos romântico não se
pode ser naquele advérbio, «ligeiramente». Eça, como Pessoa, nunca se desmentiu.
Se quisermos uma carta de amor a preceito na nossa língua, uma carta de romântico em
pleno Romantismo e espigada por um grande escritor romântico, temos de recorrer a Garrett,
João Baptista de Almeida Garrett, visconde. E às Cartas de Amor à Viscondessa da Luz,
de seu nome Rosa Montufar Barreiros, casada com um oficial do Exército da confiança de
D. Maria II e feito Visconde de Nossa Senhora da Luz. […] Garrett jura que não existe para ele
nenhuma outra mulher, embora tentasse, o espírito rebelava-se e o coração ficava indiferente.
E remata, romanticamente, amorosamente, galhardamente: «Eu a ninguém amei, a ninguém
hei de amar senão a ti». Isto, senhoras e senhores, é uma carta de amor. Não foi apenas
à viscondessa da Luz que Garrett as escreveu. Houve outras, não menos apaixonadas. O
homem era sincero em todas.
Fonte:
Clara Ferreira Alves, «Todas as cartas de amor são ridículas e outras nem chegam a sê-lo», in E – A Revista do Expresso, 19 de janeiro de 2019, pp. 22-23.
Notas:
1 epistolografia – arte de escrever epístolas ou cartas.2 emulação – imitação.3 se estar ralando para – não se preocupar com.4 serrotasse – cortasse com um serrote.
Questão:
A forma verbal «estipula» (linha 4) exprime um valor aspetual genérico, tal como a forma verbal
Fonte: Exame Português - 2020, 2ª Fase
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