No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas,
penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado,
envolto num roupão branco de pelo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda
de cristal (por causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim,
prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto
sumptuário¹ da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada
dia, o meu regalo e o meu espanto ‒ porque as havia largas como a roda maciça de um carro
sabino²; estreitas e mais recurvas que o alfange³ de um mouro; côncavas, em forma de telha
aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas⁴ de javali; macias que
nem penugem de rola! De todas, fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo,
se utilizava o meu Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata,
permanecia este Príncipe passando pelos sobre o seu pelo durante catorze minutos.
No entanto o Grilo e outro escudeiro, por trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas⁵,
manobravam, com perícia e vigor, os aparelhos do lavatório ‒ que era apenas um resumo
das máquinas monumentais da Sala de Banho, a mais extremada maravilha do 202. Nestes
mármores simplificados existiam unicamente dois jactos graduados desde zero até cem; as
duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilizada para os dentes; o repuxo
borbulhante para a barba; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos,
cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos
mantinham em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas, saía enfim
o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpa, a uma toalha de linho, a outra
de corda entrançada para restabelecer a circulação, a outra de seda frouxa para repolir a
pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacinto,
estendido num divã, folheava uma agenda, onde se arrolavam⁶, inscritas pelo Grilo ou por ele,
as ocupações do seu dia, tão numerosas por vezes que cobriam duas laudas⁷.
Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa, ou a
interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais consciente
comunhão com todas as funções da Cidade. (Jacinto com efeito era presidente do clube
da Espada e Alvo; comanditário⁸ do jornal «O Boulevard»; diretor da Companhia dos
Telefones de Constantinopla; sócio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do
Comité de Iniciação das Religiões Esotéricas, etc.) Nenhuma destas ocupações parecia
porém aprazível ao meu amigo ‒ porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
frequentemente arremessava para o tapete, numa rebelião de homem livre, aquela agenda
que o escravizava.