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Dificuldade: fácil
O conceito de cultura científica é o mais vasto e o mais complexo. A cultura científica não
consiste apenas na capacidade de ler o mundo à nossa volta e de sabermos orientar-nos
nele, nem consiste apenas na aquisição de conhecimentos científicos, como pretende o Public
Understanding of Science.
A cultura científica é um capital que nos permite não apenas ler, mas usufruir do mundo,
não apenas conhecer, mas manipular as ideias produzidas pela ciência, perceber as
potencialidades e os riscos e as limitações da ciência, relacionar os conhecimentos da ciência
com outros saberes e culturas e integrá-los numa visão coerente e enriquecedora do mundo,
e encarar a ciência sem a mínima atitude de servidão ou sequer de reverência, mas apenas
com curiosidade, emoção e sentido de responsabilidade.
A promoção da cultura científica visa dar à ciência o mesmo estatuto que possuem saberes
como a literatura ou a música: garantir a todos a capacidade para o seu usufruto, as condições
para a sua apropriação e as ferramentas para o seu controlo.
A cultura científica exige conhecimentos sobre a ciência, mas não conhecimentos
disciplinares. Trata-se de conhecimentos sobre a forma como a ciência progride, nunca
linearmente, mas com correções e desvios constantes; sobre a necessidade de hipóteses,
de experiências, de confirmações e de desilusões; sobre a importância da imaginação e da
excentricidade; sobre o valor da diferença e a importância do trabalho em equipa; sobre a
importância do debate vivo e aberto; sobre as regras e os limites do método científico; sobre
a banalidade do erro, a frequência dos enganos, os inevitáveis enviesamentos e as humanas
fraudes, que existem tanto na ciência como em qualquer outra atividade humana; sobre a
objetividade da ciência, mas também sobre o papel da subjetividade nas suas conclusões;
s sobre a intemporalidade da ciência, mas também sobre a forma como cada época gera as
suas verdades provisórias; sobre a universalidade da ciência, mas também sobre a forma
como o contexto molda os consensos que constituem a «verdade científica».
A promoção da cultura científica nada tem a ver com a promoção da ciência. Promover a
cultura científica é promover este olhar e estimular o diálogo, alimentar o pensamento crítico e
a capacidade de fascínio com a descoberta, afastar o receio de questionar e ensinar-nos que
é lícito ver algo diferente do que todos os outros à nossa volta veem e sempre viram.
Promover a cultura científica não é ensinar ciência – embora também o seja –, sendo
fundamentalmente aproximar os cidadãos da ciência e familiarizá-los com os cientistas, com a
sua atividade, e estimulá-los a questionar não só o mundo, mas a própria ciência.
Fonte:

António Granado e José Vítor Malheiros, Cultura Científica em Portugal: Ferramentas para Perceber o Mundo e Aprender a Mudá-lo,Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015, p. 19 (adaptado)

Questão:
Identifique o antecedente do pronome presente em «embora também o seja» (linha 30).
Fonte: Exame Português - 2017, 1ª Fase
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