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Dificuldade: média
Quando me sinto desinfeliz vem-me sempre à cabeça o poema de Carlos Queiroz chamado
«E no Seu Nome esperarão as gentes», que é uma citação de São Mateus. Isto dura desde os
treze ou catorze anos, quando li o livro de poemas «Desaparecido» que descobri na biblioteca
do meu pai. E no meio da desinfelicidade aparece-me logo a primeira quadra
No ar azul da madrugada
virias logo se eu chamasse?
Encostarias Tua face
à minha face enregelada?
Porque é que isto sempre me comoveu e ajudou tanto? Porque volto a ser logo o menino
que fui e que o poema torna mais forte no meio da grande solidão que todos temos às vezes:
Se Te contasse o meu desgosto
de quando a angústia me vem ver
ter de expulsá-la pra viver
afagarias o meu rosto?
Esta é uma pergunta minha também. O meu desejo. E aqui, sentado a esta mesa cheia
de papéis, escrevo isto comovidamente. Estes versos acompanham-me sempre no ar azul da
madrugada, quando tudo me parece irremediável, sem qualquer solução. O que farei de mim,
o que farei comigo? E depois, felizmente, voltam a paz e a esperança. Por que carga de água
tudo me toca, uma voz, um olhar, um sorriso às vezes, uma senhora de idade a afastar-se de
mim a remar com a bengala porque o passeio se transformou numa espécie de mar? Quando
eu era pequeno tinha a Gija, uma camponesa galega que me deu tanto amor. Ajudava-me a
despir, vestia-me o pijama, ficava ao pé de mim até eu adormecer. Desapareceu da minha vida
de repente, não sei porquê, e durante anos e anos não a vi. Quatro meses antes de embarcar
para a guerra casei-me, havia pessoas no adro da igreja a olharem, eu não via a Gija
(chamava-se Alice, eu não sabia dizer Alice)
não via a Gija desde os cinco anos, portanto há cerca de vinte e de súbito ela estava ali, no
meio das tais pessoas a olharem, gorda, de cabelos brancos e
(como se explica isto?)
soube logo que aquela pessoa era ela. Larguei a noiva, corri para aquela senhora e abracei-a
de uma maneira como nunca abracei ninguém. Tinha o mesmo cheiro, a mesma forma de me tocar
(posso estar a ser injusto mas acho que nunca ninguém me tocou como ela)
os mesmos olhos transbordantes de ternura. E ali ficámos, agarrados, comigo de novo tão
pequeno, tão feliz. Gija. Gija Gija Gija. Os convidados do casamento espantados, as pessoas
que olhavam espantadas e eu, muito maior do que ela, de repente pequeno, ao seu colo. Ao
seu colo. Tinha um senhor ao lado, que era o marido que eu não conhecia, mas eu queria lá
saber do marido. Éramos um do outro, Gija, e voltei a ser o menino de alguém. Voltei, com
tanta força, a ser o menino de alguém. A ternura dela era a mesma, o amor por mim era o
mesmo, só que estava cheia de lágrimas. Lembro-me tão bem de dizer-lhe
– Gija nunca deixei de ser o teu menino
e depois voltei para o casamento, para Tomar onde tinha sido colocado antes de ir para
Angola, para longe de ti, eu que nunca devia ter saído do teu colo, tu que me amaste sempre
incondicionalmente, com tanta pureza, tanta simplicidade, tanta, meu Deus, alegria. E eu que
continuo a amar-te de uma paixão tão linda, eu que sempre, ao acontecer-me um desses
problemas gravíssimos da infância, uma queda, a perda de um brinquedo, dizia logo
– Quero a Gija
e tudo se compunha outra vez.
Fonte:

António Lobo Antunes, «E no Seu Nome esperarão as gentes», Visão, 6/9 a 12/9/2018, p. 7.

Questão:
A partir da linha 41, o autor usa a segunda pessoa, quando se refere a Gija, para
Fonte: Exame Português - 2019, 2ª Fase
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(A) reproduzir, no seu discurso, as palavras que lhe dirigiu no dia do casamento.
(B) renovar os laços de união que foram perdidos após ter sido colocado em Angola.
(C) exprimir a convivência que com ela manteve de forma regular ao longo da vida.
(D) expressar a profunda comunhão com alguém que continua vivo na sua memória.


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