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Dificuldade: média
Portugal – sobretudo Lisboa, mas não só Lisboa – parece, neste momento, cavalgar uma
onda alta no setor do turismo. Os estrangeiros estão a «descobrir» que Lisboa é uma bela
e atraente cidade e que Portugal e os portugueses são um destino turístico especialmente
aprazível e amistoso. Julgo que teríamos a obrigação, que até seria vantajosa, de alargar
o nosso conceito de turismo para áreas que transcendem a boa culinária, o bom vinho, o
bom sol, algum fado e o bom feitio dos lusíadas. Há todo um setor – o turismo cultural – que
conviria ser profundamente trabalhado, cavalgando esta onda de simpatia de que Portugal, de
momento, desfruta.
O valor do turismo cultural – com circuitos turísticos organizados tematicamente e envolvendo,
por exemplo, a Lisboa de Fernando Pessoa ou de Eça de Queirós ou a Trás-os-Montes de Miguel
Torga ou de Teixeira de Pascoaes, entre muitos outros que não custa muito congeminar – é
incontestável. Este turismo cultural visa uma fatia especial de turistas: é um turismo que
fixa mais profundamente o turista à nossa terra e à nossa cultura e o torna, eventualmente,
um frequentador mais assíduo e persistente do nosso país. A este turista, seria propiciada
sempre a aquisição, na sua língua, de obras literárias ou de outra natureza, para as quais
se sentiria seduzido pelo próprio interesse que encontra nos sítios, nos monumentos, nas
pessoas. E nem seria muito de admirar que esta espécie de conquistado novo amigo da nossa
terra e da nossa cultura acabasse por desejar aprender a nossa língua, não só para melhor
comunicação, mas também para um contacto mais direto – sem o intermediário da tradução –
e mais eficaz com a nossa literatura e cultura.
Há hoje, em Portugal, alguns bons especialistas em turismo cultural e não seria difícil aos
nossos serviços de turismo, com o apoio de tais especialistas, organizar bons e apelativos
circuitos culturais que vendessem aos turistas interessados. Seria um bom e duradouro
investimento e a captação de amigos permanentes de Portugal.
[...] Falámos atrás na propiciação de traduções de obras de bons autores portugueses,
destinadas aos utentes dos circuitos culturais centrados na figura dos autores traduzidos. É
uma primeira aproximação à nossa literatura, esta que se faz por intermédio de traduções.
Mas não chega a ser muito satisfatória. Nenhuma obra traduzida – sobretudo se for de um
grande escritor – dá nunca medida justa do talento ou do génio desse escritor. Fernando
Pessoa traduzido não é Fernando Pessoa: é apenas uma pálida alusão ao grande poeta. Eça
de Queirós traduzido perde grande parte do fulgor, da picante maldade, da mordedura do
estilo, que se patenteiam nos seus romances admiráveis.
[...] Enquanto não trouxermos o estrangeiro até à nossa língua, teremos ficado apenas a
meio do caminho. Vender a nossa literatura em tradução é apenas a primeira metade da tarefa
que nos incumbe. Os nossos grandes escritores são para serem lidos em toda a força da sua
própria língua. Dá-los traduzidos é propiciar apenas uma sombra do que são. O picante de
Eça, as sinestesias e metáforas de Sá-Carneiro, a malícia peculiaríssima de O’Neill não são
ofertáveis em pálidas versões que pouco mais serão do que contrafações.
No dia em que pudermos oferecer percursos culturais fortes, apoiados em obras aliciantes
que o turista estrangeiro possa manusear na sua frescura original, estaremos a percorrer um
bom e seguro caminho. Não se fará em dias, em meses, em poucos anos. Será uma longa
conquista. Mas é o caminho.
Fonte:

Eugénio Lisboa, «Promover a literatura portuguesa», Jornal de Letras Artes e Ideias, de 11 a 24 de abril de 2018, p. 33.

Questão:
O recurso, em simultâneo, às expressões «pálidas versões» e «contrafações» (linha 38) para caracterizar as traduções enfatiza a ideia de
Fonte: Exame Português - 2019, Época Especial
(A) imitação.
(B) empobrecimento.
(C) falsificação.
(D) plágio.


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