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Dificuldade: média
Venho a Malaca, que agora se chama Melaka, pela História do meu país. No século XV, o
sultanato controlava o comércio do Oriente, o imperador chinês oferecia a filha em casamento
ao sultão. Vinte mil navios lançavam âncora no porto, 84 idiomas regateavam preços no
cais. «Quem for senhor de Malaca tem a mão na garganta de Veneza», escrevia Tomé Pires,
contemporâneo de Afonso de Albuquerque, aludindo à importância de Malaca no controlo da
rota das especiarias.
Portugal conquistou a cidade em 1511, perdeu-a em 1641 para a Holanda. Não tenho
ilusões sobre os vestígios da presença portuguesa: já passou demasiado tempo. O que os
Holandeses e os Ingleses não destruíram, deixámos nós que se diluísse nos séculos de
ausência e de desleixo. Antecipo Melaka como um cruzamento da humanidade, uma poção
única, uma receita irrepetível. Mas não é assim. Encontro uma anónima e descoordenada
cidade oriental, que podia ser qualquer outra cidade do Sudeste Asiático, um quarteirão
periférico de Sydney, de São Francisco. Um rio lamacento e abandonado atravessa o centro,
fachadas sujas e desmazeladas derretem-se sobre as margens. Do lado de cá, os Chineses;
e do outro lado, os Indianos. Os Malaios estão mais além. Não há confusões. Cada um trata
de si, todos se atarefam em conquistar uma vida melhor: um novo eletrodoméstico, um fim de
semana em Singapura, a universidade dos filhos, a peregrinação a Meca.
Sob a aparente indolência tropical, as tensões étnicas vão cozendo em fogo lento. De
tantos em tantos anos, explodem. Nada é inconsequente em Malaca: a língua, a fé, a cor da
pele, a forma de vestir ou a aptidão profissional atribuem um lugar preciso no tabuleiro social.
As pessoas carregam a afiliação étnica não apenas como uma identidade, também como um
vínculo.
Ponho-me à procura das relíquias da passagem portuguesa. Encontro a porta decrépita
de um forte demolido, o esqueleto de uma igreja, uma estátua mutilada de São Francisco
Xavier. Faz tudo parte do roteiro turístico de Malaca, juntamente com o passeio de riquexó,
a visita ao shopping, a quinta dos crocodilos. A réplica da caravela portuguesa que serve
de museu da cidade não é, afinal, uma homenagem ao extraordinário feito de armas dos
navegadores lusitanos – o de conquistar, com duas dezenas de navios e 1500 homens, um
poderoso sultanato de 100 000 habitantes. Depois de sete meses de navegação desde Lisboa.
O museu serve para glorificar as bases religiosas da nação. Dentro, tudo conduz à conclusão
de que os sucessivos invasores europeus não teriam conquistado Melaka hoje […].
Continuo a procurar Portugal em Malaca – na igreja. O catolicismo, a artéria vital da
mentalidade do meu povo, é um legado da presença portuguesa no antigo empório dos sete
mares. Entro, é a hora da missa. A igreja imita o gótico francês, o padre é chinês, os fiéis
são asiáticos, a missa decorre em inglês, as canções transmitem um concentrado de alegria,
ritmo e nonchalance que seria impensável em Portugal. Não é um legado evidente. Mas uma
coisinha pequena começa a agitar-se na alma: o sentimento de identificação com a realidade
que me rodeia. Um momento familiar. Uma saudade.
Fonte:

Gonçalo Cadilhe, Planisfério Pessoal, Lisboa, Clube do Autor, 2016, pp. 232-233

Notas:

• nonchalance (linha 36) - expressão em francês que significa «despreocupação», «desprendimento».• riquexó (linha 25) – veículo de duas rodas para uma ou duas pessoas, puxado por uma pessoa a pé ou de bicicleta, frequente em cidades do Oriente.

Questão:
Os complexos verbais «vão cozendo» (linha 18) e «Continuo a procurar» (linha 32) têm um valor aspetual
Fonte: Exame Português - 2017, 2ª Fase
(A) durativo.
(B) genérico.
(C) habitual.
(D) pontual.


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