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Parte A:

Contexto:

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Título: Os navegadores solitários


Este mundo tem coisas. Confesse, leitor, que vale a pena andar por cá. Dificilmente se
arranjaria, em qualquer canto do universo, espetáculo mais variado, todo em golpes de
teatro, embrulhadas situações, encontros inesperados, saídas falsas e entradas a destempo.
E rábulas¹. Os escritores que se dedicam à ficção científica não conseguiram, até agora, que
eu saiba (e gabo-me de alguma coisa saber do género), criar um mundo que se assemelhe
ao nosso em teor de excentricidade. Ao ponto de me deixarem, a mim, frio e indiferente,
mesmo quando carregam no pedal amplificador dos monstros verdes e monoculares ou
das algas falantes. Já sou sensível às imaginações poéticas, mas isso, mais que certo, é
preconceito de classe.
Vem este preâmbulo² a propósito dos navegadores solitários. Em tempos admirei
cegamente estes homens, a sua coragem, o desprendimento com que se deixam ir entre mar
e céu, entregues a si próprios e à fortuna, que tanto protege os audaciosos como friamente
os elimina. Ainda hoje lhes reservo um canto do coração. É verdade que admiro toda a
gente que se atreva ao que eu, por mim, não sou capaz de fazer, mas estes navegadores
merecem-me estima especial, ou não seja eu descendente de um povo de marinheiros.
Lá uma vez por outra, perde-se o navegador na imensidão dos oceanos. E aqui é que tem
bom cabimento a frase com que abre esta crónica: «Este mundo tem coisas.» Porque mal o
navegador se atrasa vinte e quatro horas na próxima escala, é certo e sabido que o mundo
inteiro cai numa terrível inquietação, perde o sono e passa a alimentar-se da primeira página
dos grandes e pequenos jornais. Toda a gente quer ajudar de qualquer maneira, telefonar
aos bombeiros ou aos hospitais, arregaçar as mangas. Em espírito, vai tudo ao cais ou à
praia deitar olhos para o oceano, a ver se aponta a vela. E não se fala noutra coisa. Estas
duas palavras (navegador e solitário) estão cheias de tal prestígio que, dizê-las ou ouvi-las, é
assim como sentir um vento de heroísmo a agitar os cabelos e as gravatas. De um momento
para o outro, o mundo fica cheio de heróis sem oportunidade nem emprego.
E isto não fica por aqui. Vão esquadras para o mar, levantam voo helicópteros e aviões,
gastam-se rios (melhor diria, oceanos) de dinheiro, tudo para encontrar o navegador perdido
ou indiferente. A humanidade sente-se regenerada, humanitária. Dará o sangue, a bolsa, sei
lá quê, para recuperar a serenidade e o navegador. Enquanto dura o transe³, a terra é um
concerto de harmonias que enche os espaços infinitos de concórdia e de paz. É bom viver,
então.
Quase sempre, o navegador aparece. Desviara-se da rota, apanhara um tufão, tivera
uma avaria na rádio, sentira, talvez, vontade de cortar definitivamente com o mundo – que
sei eu mais. Há um grande e geral suspiro de alívio, tão sincero que ninguém pensa em
perguntar, sequer, quem vai pagar as despesas. Nem interessa. De tal maneira nos havíamos
identificado com o navegador, que é como se o barco fosse nosso e nossa a aventura.
Este mundo tem coisas. Porque entretanto, e antes, e depois, passam todos os dias ao
nosso lado outros navegadores solitários, doentes uns, desafortunados, sem casa nem
trabalho, sem alegria, sem esperança – e ninguém atravessa a rua para lhes dizer: «Estás
perdido, amigo? Estás perdido?»
Fonte:

José Saramago, Deste Mundo e do Outro, 3.ª ed., Lisboa, Caminho, 1986

Notas:

¹ rábulas – pequenos episódios de carácter cómico.² preâmbulo – introdução.³ transe - estado mental durante o qual as pessoas agem de forma inconsciente, como se estivessem hipnotizadas.

Questão:
Justifica o recurso à repetição, ao longo do texto, da frase seguinte: «Este mundo tem coisas.» (linhas 1, 17 e 37).
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2015, Época Especial

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