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Dificuldade: média
A experiência mostrou-nos que, regra geral, não são apenas os juízos estéticos e éticos
que diferem de uma cultura para outra mas também os juízos de verdade e, por vezes, a
própria noção de verdade. […]
Esta consciência da relatividade dos sistemas de valores e da contingência dos juízos
influencia hoje numerosos estudos históricos e culturais. Ela ajuda-nos a libertarmo-nos um
pouco do nosso provincialismo natural. Permite igualmente retificar a nossa visão deturpada
pelo imperialismo europeu de que somos filhos e que nos leva a crer que o ponto de vista
ocidental é o único razoável. Ajuda-nos a compreender que aquilo que é verdadeiro, belo
e justo para nós não o é forçosamente para os outros. Se a própria ciência não consegue
dar-nos certezas, seríamos completamente obtusos se tomássemos por ouro puro aquilo que
somos os únicos a acreditar ser verdadeiro.
Saudável e importante, essa consciência do outro é, no entanto, por vezes, caricaturada
numa relativização completa de todos os valores: a conclusão de que todas as opiniões
são igualmente verdadeiras; que todos os juízos éticos e morais devem ser considerados
equivalentes; que falar de certo e de errado, ou falar de «verdade», não tem qualquer sentido.
[…] Este relativismo caricatural é a consequência de um equívoco profundo.
Levar a sério ideias diferentes das nossas não equivale a afirmar que todas as ideias são
iguais. Reconhecer que podemos estar errados não significa que as noções de certo e de
errado não façam sentido. Percebermos que um juízo não se forma senão no seio de um
complexo ambiente cultural, e que está ligado a muitos outros juízos implícitos, não significa,
de modo algum, que não possamos perceber que estamos errados.
Aprofundando um pouco mais, o problema principal deste relativismo cultural radical é que
ele se contradiz a si mesmo. É certo que não existem valores de verdade absolutos, a-históricos
e aculturais. Nenhum discurso está fora da sua cultura e dos seus sistemas de valores e de
verdade. Mas, precisamente por isso, estamos sempre dentro de um sistema cultural, e, dentro
desse sistema, não podemos prescindir de escolhas e de juízos. […]
Não poderia ser de outra forma, porque pensar é julgar. Viver é decidir, a cada momento.
Não existe noção de verdade fora do nosso universo de discurso, e é precisamente por isso
que nós não podemos senão permanecer dentro de um sistema e não podemos prescindir
da noção de verdade. Pensamos e falamos sempre e unicamente em termos dessa noção,
mesmo quando tentamos negá-la.
Por outro lado, isso não implica que devamos assumir que os nossos critérios estéticos,
éticos e de verdade são absolutos e universais, ou que são os melhores. E isso não implica que
devamos preferi-los às variantes que as outras culturas, ou que a própria natureza, ou que a
evolução interna do nosso pensamento nos propõem. Porquê? Porque é um aspeto estrutural
do nosso universo linguístico estar aberto ao encontro com outros universos linguísticos. As
diferentes culturas não são bolhas separadas, são vasos comunicantes.
Fonte:

Carlo Rovelli, Anaximandro de Mileto ou o Nascimento do Pensamento Científico, tradução de Jorge Melícias, Lisboa, Edições 70, 2021, pp. 129-131.

Questão:
A expressão «de verdade» (linha 2) e a expressão «de “verdade”» (linha 15) desempenham a função sintática
Fonte: Exame Português - 2022, 2ª Fase
(A) de complemento oblíquo, no primeiro caso, e de complemento do nome, no segundo caso.
(B) de complemento do nome, no primeiro caso, e de complemento oblíquo, no segundo caso.
(C) de complemento do nome, em ambos os casos.
(D) de complemento oblíquo, em ambos os casos.


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