Quem começou a falar foi um fidalgo chamado Egípcio. Era um homem vergado pela
idade, mas de uma sabedoria imensa. O seu filho partira com Ulisses nas naus para
Troia. Chamava-se Ântifo; era excelente lanceiro. Mas o pai não sabia que ele tinha sido
comido pelo cruel Ciclope na sua gruta escavada: fora comido pelo gigante monstruoso,
cujo único olho Ulisses cegara (como se verá mais adiante neste livro). Egípcio tinha
mais três filhos: um era de mau carácter e dava-se com os pretendentes; os outros dois
dedicavam-se à lavoura¹ da terra paterna. Mas era do filho que partira com Ulisses que
o velho se lembrava. Estava triste e preocupado e, com lágrimas nos olhos, assim se
dirigiu à assembleia:
— Ouçam agora, homens de Ítaca, o que tenho para dizer! Nunca houve entre nós
uma assembleia desde que o rei Ulisses partiu para Troia. Quem nos convoca agora?
Quem sentiu tal necessidade? Será que ouviu a notícia de que vem aí um exército para
nos atacar? Ou será outro o assunto público sobre o qual quer discursar? Só pelo facto
de ter convocado esta assembleia parece-me pessoa idónea², abençoada; e que Zeus
o cubra de benesses³, seja qual for o seu intuito⁴.
Assim falou; e Telémaco alegrou-se com o que foi dito. Não permaneceu sentado, pois
fazia tenção de falar. Pôs-se de pé no meio da assembleia. Um dos arautos⁵ colocou-lhe
na mão um cetro⁶, como sinal de que Telémaco estava, a partir de agora, no uso da
palavra. E Telémaco falou, dirigindo-se em primeiro lugar ao orador idoso. Toda a noite
tinha preparado o discurso na sua cabeça; o seu único receio era de não conseguir
controlar a emoção. Acontecesse o que acontecesse, tinha de fazer boa figura.
— Ancião! — começou Telémaco — não está longe, como saberás em breve, quem
convocou o povo. Fui eu próprio. Não ouvi notícia alguma de que vem aí um exército,
nem há outro assunto público sobre o qual eu deseje discursar. A necessidade é minha,
pois sobre a minha casa se abateu uma dupla desgraça: ao que parece, perdi o nobre
pai, que entre vós reinou. Mas a outra desgraça é pior, pois em breve toda a minha
casa destruirá e tirar-me-á a mim os meios de subsistência. Todos vocês sabem que
pretendentes importunam a minha mãe à sua revelia, filhos dos homens que aqui
têm mais nobreza. Porquê? Porque receiam dirigir-se a casa do pai dela, o meu avô
Icário, com medo de que este exija os devidos presentes nupciais, para dar depois a
filha a quem ele entender. Em vez disso, entram e saem de nossa casa dia após dia e
matam-nos os bois, as ovelhas e as cabras; banqueteiam-se e bebem-nos o vinho sem
moderação. Vai-se tudo; e não há um homem que consiga afastar da casa a ruína. Por
mim esforçar-me-ia, se tivesse força para isso, pois foram cometidos atos que ninguém
pode aguentar: além do aceitável foi a minha casa arruinada. Tenham vergonha e
respeitem os outros! Peço-vos por Zeus!
Assim falou. E na sua fúria atirou com o cetro ao chão, sufocado de lágrimas. Todo
o povo sentiu pena dele. Todos ficaram em silêncio. Ninguém teve coragem de responder
a Telémaco com palavras agrestes.