As grandes bibliotecas – imagino eu as grandes bibliotecas… – atraem-me e apavoram-me,
como a montanha magnética dos contos antigos. Convencem-me da minha tremendíssima,
acabrunhante e arrasadora ignorância. Eu atrevo-me a murmurar «Homero» e logo me salta a
«questão homérica», os milhares de volumes sobre Homero, em rolos, em códices¹, alinhados
por prateleiras sem fim, vergadas ao peso deles. Eu quero citar Dickens e logo vejo as multidões
de comentadores de Dickens, exibindo folhas e folhas de anotações, a rir alvarmente² do meu
desacerto. Eu tenho umas pobres opiniões sobre a Montanha Mágica, mas hei de calar-me,
quando se altaneiram³ resmas e resmas, alpínicas e ameaçadoras, contendo exegeses⁴ sábias
sobre Thomas Mann. E o D. Quixote da Mancha? Meu Deus, estou proibido de me pronunciar
sobre o D. Quixote. Pode desabar-me em cima toda uma parede de livros, alguns bem grossos
e esmagadores, que esmiuçam a obra ao pormenor e não toleram a observação veleira⁵
do diletante que diz por dizer, ou por lhe parecer. E Montaigne? Ah, distante Montaigne… E
Gogol? Ah, inacessível Gogol…
Como é triste e deprimente ser-se tão desconhecedor… Não se trata de retórica, daquele
«só sei que nada sei» que foi atirado ao populacho pelo «mais sábio dos homens». Nem
tampouco o «eu nem sei se nada sei», triunfal, do nosso Francisco Sanches. Nem sequer dum
«eu nem isso sei», aposto num vezo⁶ retórico de querer mais, por saber ainda menos. É que
eu não sei mesmo absolutamente nada.
E, portanto, posso falar sobre o quê? Sobre nada. Que é tarefa muito mais difícil do que
falar sobre tudo, porque esta supõe que se sabe tudo sobre tudo e, pelo que se vê em volta,
saber tudo sobre tudo é muito mais fácil e generalizado do que nada saber sobre nada.
No Para Sempre de Vergílio Ferreira uma personagem percorre o corredor duma biblioteca.
Lá, os autores, desde o cabo da História palram, palram, palram e gargalham. É uma zoada
para os ouvidos. A personagem não pode deixar de saber que eles lá estão. Os livros são
falantes, discutem, cochicham, incomodam, não dormem, não se calam. De facto, mal eu me
chego à Biblioteca Nacional, ou à Torre do Tombo, hei de sentir aquele ruído, aquele zunzum,
de gente a querer contar coisas, a querer demonstrar coisas, a exibir, a refutar, a impor-se.
E eu sei que não vou conseguir entender-me, ali no meio. Vou ficar confundido. Vou ficar
reduzido. Vou-me ver do tamanho daqueles insetos predadores de papel, quase translúcidos,
ínfimos e mesquinhos, mas sem possuir sequer as corrosivas mandíbulas que eles têm de
defesa.
Como é que se pode viver, com esta deficiência, esta inferioridade? É uma boa pergunta,
com que me confronto repetidamente. E só posso responder com a confissão da gelada
realidade dos factos. A caridade dalguns dos meus concidadãos vale-me e sustenta-me.
Graças lhes dou.