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Dificuldade: fácil
Podemos falar do jardim como representação: uma representação do olhar do homem
sobre a natureza. Neste sentido, não há nada mais antinatural do que o jardim. As suas
formas, quer sigam os padrões clássicos de uma estrutura geométrica e arquitetónica definida
pelo desenho rigoroso do espaço, quer procurem imitar a desordem da vegetação selvagem,
são concebidas para sugerir um domínio do homem sobre algo que lhe é anterior, e que
durante séculos ou milénios condicionou a sua própria existência através dos ciclos naturais
da alternância climática, dos períodos de seca ou dos incêndios, das barreiras que muitas
vezes a natureza colocou ao avanço da chamada civilização.
A função do jardim variou ao longo da história e o seu objetivo nem sempre foi o mesmo. A
ambição de reproduzir um éden, ou o que seria o espaço perfeito dos deuses, vem da imagem
dos jardins suspensos da Babilónia, onde a construção em vários níveis sugere a ascensão
ao Paraíso através do contacto com vários planos de distribuição da beleza natural. O Oriente
é um dos lugares em que o jardim tem essa função transcendente de fruição pura das cores
e das formas das plantas, cruzando-se com a água, ao contrário do jardim medieval que
acrescenta um lado utilitário com a plantação de ervas aromáticas, de sabores, de frutos.
Mas o jardim é também um lugar destinado a pôr um parêntesis na desordem e na confusão
do mundo. Mesmo em épocas remotas, ele tinha essa função de hortus conclusus — o lugar
fechado onde era possível o refúgio de tudo aquilo que ameaçava o homem, na sua vida
social. Lugar de meditação e locus amoenus, era aí que o tempo podia parar o seu curso,
como se o contacto com a vegetação «desviasse» o homem desse ciclo infernal do tempo
que não para e que o arrasta inevitavelmente para a morte. Ao contrário do tempo filosófico, o
tempo associado por Heraclito à água do rio que nunca é a mesma, e não é reversível no seu
curso, o tempo natural é cíclico, tendo nele origem a filosofia do eterno retorno que, em cada
primavera, faz regressar o viço que o outono fez perder, antecipando a morte invernal.
Por isso, o jardim é um espaço otimista, onde é possível o contacto com essa ilusão de
perenidade que a escolha das suas espécies — em que poderá sempre haver folhagem,
mesmo no inverno — permite sugerir. Também o sonho da renovação se encontra nele,
juntando os dois mundos elementares que são a terra e a água, de uma forma ativa, sempre
transmitindo essa dinâmica que faz parte da evolução sazonal onde o céu desempenha
igualmente um papel central, como teto e suporte dessa dinâmica. Será também contraditória
esta coexistência, no jardim, de dois opostos: a imobilidade, a paragem do tempo, que prende
o homem a uma ideia de eternidade; e o movimento invisível da natureza, as transformações
que se verificam a cada momento no interior das plantas, e que nos levam a olhá-las sabendo
que a floração é uma fase, mas que o seu desaparecimento arrastará necessariamente um
futuro renascimento.
Fonte:

Nuno Júdice, Camões - Por Cantos Nunca Dantes Navegados, Lisboa, Sibila Publicações, 2019, pp. 83-84.

Questão:
No contexto em que ocorrem, a repetição da palavra «jardim» (linhas 1, 2, 9, 13, 14, 16, 25 e 31), por um lado, e o uso de «Mas» (linha 16) e de «Por isso» (linha 25), por outro lado, contribuem
Fonte: Exame Português - 2021, Época Especial
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(A) para a coesão lexical por reiteração, em ambos os casos.
(B) para a coesão gramatical interfrásica, em ambos os casos.
(C) para a coesão gramatical interfrásica, no primeiro caso, e para a coesão lexical por reiteração, no segundo caso.
(D) para a coesão lexical por reiteração, no primeiro caso, e para a coesão gramatical interfrásica, no segundo caso.


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