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Contexto:

Nota prévia
Em 1501, as personagens Manuel e Mestre João encontram-se numa nau da frota de Pedro Álvares Cabral, já no regresso da Índia e após a passagem pelo Cabo da Boa Esperança.


Passagem de tempo
MANUEL E MESTRE JOÃO conversando no convés.
MANUEL – Se não acreditais que morri, Mestre, e que o Demónio me fez tornar
à vida para que outra vez morresse, dizei-me então por que atravessei eu o Purgatório
e vivi no Inferno durante todos aqueles dias depois do naufrágio da minha caravela, e até
que fui encontrado pelos desta nau?
MESTRE JOÃO – Falas do Purgatório e do Inferno? Que Purgatório? E que Inferno, filho?
MANUEL – Sabei, Mestre, que, desde que dei acordo de mim na praia, depois do
naufrágio, me achei ali numa tão grande solidão que fiquei certo de serem aquelas
paragens as do Purgatório e de estar eu morto. Caminhei durante vinte dias sem
encontrar alma viva, nem gente nem bruto.
MESTRE JOÃO – É natural. É bem sabido que são aquelas apenas terras de areia...
MANUEL (Interrompendo-o) – De areia e de pedras, mas também, mais a norte, de
lugares amenos, de pasto e água. (Pausa:) Aí deparei ao vigésimo primeiro dia com
muitos homens morenos vestidos de peles e com braceletes de marfim, levando todos
na mão um enxota-moscas. Pastoreavam ovelhas de grandes caudas e mansos bois,
tocando flautas bem concertadas e cantando.
MESTRE JOÃO (Rindo) – Cantando como as Sereias do teatro?
MANUEL – Não troceis, senhor, que só vos falo a verdade de tudo o que vi...
MESTRE JOÃO – Eu bem sei, filho, mas às vezes parece-me que ainda deliras.
(Pausa:) Mas continua, continua...
MANUEL – Quando parti em direção aos que cantavam, a pedir por socorro, fugiram
depressa de mim como se vissem um espectro¹ do outro mundo, que decerto era esse
o meu estado.
MESTRE JOÃO (Condescendente) – E pensas, assim, que seria aí o Inferno?
MANUEL - Estou seguro de que seria o Purgatório, e de que aquelas almas me
souberam a caminho das terríveis provações do Inferno, que me haviam ainda de vir²,
com muita fome, e comendo terra e raízes, e com os pés com tantas chagas de caminhar
sem tempo e sem destino e os olhos tão cegos que, fosse eu ainda vivo, e ali teria
morrido de dores e de desespero.
Entra o CAPITÃO.
CAPITÃO – Continuais sempre a conversar? (Para MANUEL:) E a ampulheta³, tens
virado a ampulheta? Não começa agora o teu quarto⁴?
MANUEL – Sim...
CAPITÃO (Para MESTRE JOÃO) – Com o céu assim enevoado há uma semana, já
quase não sabemos se é de manhã se é de tarde... (Para MANUEL de novo:) Sem Sol
não temos como acertar a ampulheta. Não comas areia para conversar ou encurtar o
quarto, senão já não nos bastará perdermo-nos no mar e ainda havemos de nos perder
também no tempo.
MESTRE JOÃO – Acabamos já de conversar, Senhor Capitão.
CAPITÃO (Saindo) – Assim espero.
Sai o CAPITÃO.
MESTRE JOÃO (Para MANUEL) – Por tudo o que disseste, passaste decerto grandes
provações, infeliz. Mas as provações do verdadeiro Inferno hão de ser bem maiores...
Tão maiores que nelas nem o teu nem o meu entendimento, nem o de nenhum homem,
podem alcançar.
MANUEL (Emocionado) – Fui apedrejado por temerosos demónios montando bois de
grande tamanho e soltando enormes gritos; e perseguido por outros com paus e setas; e
mordido por serpentes e bichos repelentes nunca vistos; sofri febres terríveis sem água
para matar a sede, bebendo só da do mar ou da dos pântanos insalubres; pisei areias
tão escaldantes quanto fogo vivo e aceso; e o meu corpo resultou rasgado por toda a
sorte de pontas e de lâminas que cresciam desabrigadamente do chão e dizeis vós,
Mestre, que não vi o Inferno?
MANUEL levanta-se e vai à amurada⁵, fitando longamente o mar. Depois vira-se de
novo para MESTRE JOÃO.
MESTRE JOÃO – O que te digo é que os teus sofrimentos foram decerto tamanhos⁶,
mas que os padeceste aqui, neste mundo, e não no outro, donde nunca homem nenhum
voltou. (Pausa:) Vai começar o teu quarto, é melhor ires pela ampulheta, como te ordenou
o Senhor Capitão. Depois continuaremos a nossa conversa.
Fonte:

Manuel António Pina, Aquilo Que os Olhos Veem ou O Adamastor, Porto, Porto Editora, 2019, pp. 101-107.

Notas:

NOTAS1. espectro - fantasma.2. vir - acontecer.3. ampulheta - instrumento usado para medir o tempo pela passagem de areia fina de um compartimento para outro; relógio de areia.4. quarto - tempo de vigia.5. amurada - parte saliente dos bordos do navio que serve de parapeito.6. tamanhos - muito grandes.Manuel António Pina, Aquilo Que os Olhos Veem ou O Adamastor, Porto, Porto Editora, 2019, pp. 101-107.

Questão:
Ao usar a expressão «Não comas areia» (linha 37), o Capitão refere-se
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2023, 2ª Fase
(A) à ampulheta controlada por Manuel.
(B) às provações sofridas por Manuel.
(C) ao relato levado a cabo por Manuel.
(D) aos lugares percorridos por Manuel.


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