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Dificuldade: média
Um busto de bronze de um português antigo entre umas rochas num jardim do Extremo
Oriente. O que é isto, como se compreende isto? Wenceslau de Moraes deixou-nos uma
descrição deste jardim tal como o encontrou em 1890: «Pedras amontoadas sobre pedras,
constituindo um pequeno outeiro eriçado de arestas musgosas; abraçando-se ao granito,
estendendo as raízes por entre os negros mamelões¹, soberbas árvores seculares; tal é o que
em Macau se chama a Gruta de Camões, e que já de longe destaca, na aridez quase uniforme
da costa, como um grande ramalhete de verdura.»
Não há grandiloquência neste texto. O Camões-histórico é referido como «um pobre
procurador dos defuntos e ausentes» que deambulava por aquelas bandas e se refugiava à
sombra de três grandes pedras, a suposta «gruta». A cidade de Macau, «pequenino domínio»
português, vê-se reduzida a «uma língua de rocha, apenas percetível nas cartas geográficas».
E, no entanto, este jardim tem uma qualquer grandeza, e essa grandeza vem do «encanto
natural da posição dominante», dos «horizontes vastos», «da vegetação vigorosa que aqui
encontra asilo, conchegada com as rochas contra a fúria inclemente dos tufões». O texto não é
uma apoteose² camoniana, e ainda menos um ditirambo³ imperial; imbuído do espírito japonês,
Moraes mostra-se sobretudo tocado pela serenidade de um jardim inesperado, «a face limosa
das pedras abruptas», «a solidão das áleas sombreadas», «o encanto dos panoramas»
de onde se veem as casas negras, a azáfama do porto, o fogo de artifício. Esta evocação
paisagística abdica da faceta «patriótica», mas não deixa de ter o turbulento Camões como
improvável patrono daquela tranquilidade, daquela ausência momentânea de amargura, que
ele próprio nunca experimentou, e que nos deixa «compenetrados no respeito das coisas».
Três décadas mais tarde, a 10 de junho de 1924, outro grande «asiático» português,
Camilo Pessanha, proferiu uma conferência intitulada «Macau e a gruta de Camões». Apesar
da ocasião oficial, Pessanha evita igualmente o tom nacionalista. A grande questão que o
preocupa é a possibilidade ou impossibilidade de um poeta continuar a ser poeta em terras
distantes, uma vez que «a inspiração poética é emotividade, educada, desde a infância e
com profundas raízes, no húmus do solo natal». Pessanha tem um entendimento bucólico,
localista, da poesia, ou da sua origem, e não esconde o seu ceticismo: não há verdadeira
capacidade poética quando a pátria está distante. A gruta de Camões suscita-lhe então uma
ideia original: a do génio como ilusão de estar em casa.
Fonte:

Pedro Mexia, «Camões em Macau», Lá Fora, Lisboa, Edições Tinta-da-china, 2018, pp. 86-87.

Notas:

1 mamelões - colinas; outeiros. 2 apoteose - homenagem grandiosa. 3 ditirambo - poesia de carácter elogioso. 4 limosa - coberta de algas. 5 áleas - ruas ladeadas por árvores. 6 húmus - matéria orgânica resultante da decomposição de detritos vegetais e animais.

Questão:
A única expressão que desempenha a função sintática de complemento oblíquo é
Fonte: Exame Português - 2025, 2ª Fase
(A) «de arestas musgosas» (linha 4).
(B) «de Macau» (linha 10).
(C) «dos tufões» (linha 14).
(D) «da faceta "patriótica”» (linha 19).


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